"Um relacionamento implica ( ... ) uma certa dose de respeito por ambos as partes", é assim que Agnes Ghaznavl (especialista em relações humanas) começa o tema "relacionamentos difíceis". E continua: sem este pressuposto "não é possível manter uma relação positiva". E o que seria uma relação positiva? Ghaznavi fala na existência de reciprocidade, respeito, amizade, lealdade, fidelidade, proximidade e liberdade, ternura e afecto, bem como no esforço no sentido da "cura gradual" de "deficiências" como o ciúme e a inveja. Com estes dois condimentos, a relação do casal acaba por se minar, pouco a pouco. Produz-se um vazio que se vai enchendo com "emoções, tais como a ira, o ódio e o desejo de destruir a felicidade e o êxito" conscientemente ou não! E muitas vezes são padrões que se aprendem em caso. Um irmão que crê que os pais dão mais atenção à sua irmã pode posteriormente canalizar esse sentimento às suas parceiras, em re1aç6es futuras; ou uma filha cuja mãe era ciumenta tenderá mais a desenvolver esse traço de carácter. Tratam-se de sentimentos que fazem porte da vida. Qualquer educador confirma este pressuposto, ao observar crianças que, ainda não totalmente educados, invejam as posses dos seus coleguinhas. Segundo o próprio Pentateuco [livro sagrado do judaico-cristianismo, a inveja conhece-se desde os primórdios da humanidade, quando, por exemplo, Caim, que invejava o irmão Abel, o mata, Dizia o poeta persa: "O ciúme consome o corpo e a ira queima o fígado; evitai-os a ambos como evitarias a um leão."
Tem vantagens?
Em sociedades que defendem o conceito de monogamia, o ciúme tende a ser associado a honra e moral, quase um instrumento de protecção familiar, uma adaptação da espécie para proteger o que é nosso por direito. Ainda hoje existem pessoas que consideram a sua manifestação no casal como sinal de amor e cuidado. Não obstante, ninguém pode afirmá-lo com total certeza. Reflectindo sobre as suas causas, chega-se a duas possibilidades: falta de confiança [no outro ou em si) ou obsessão, Assim, os traços característicos do ciúme encontram-se nos pensamentos [que se repetem na mente do ciumento) e nas imagens intrusivos e ruminantes sem fim. (sobre eventos e episódios que podem nem sequer ter ocorrido).
Não sendo capazes de distinguir a fantasia nas suas mentes da realidade, cria-se o temor à perda (temor esse que pode nem ser real). O ciumento vai procurando provas que confirmem as suspeitas (inquirindo o outro sobre o que faz, ou verificando os seus bolsos, etc.), trazendo cada vez mais dúvidas. Esse ciúme, que podemos apelidar de patológico, agrega em si outras emoções (ansiedade, depressão, raiva, vergonha, insegurança, humilhação, perplexidade, culpa e desejo de vingança), todos relacionados com a baixa auto-estima, que acarreta uma sensação de insegurança, Essa falha de auto-estima, actuando como uma falha sísmica, é sensível e vulnerável a qualquer pequena alteração, libertando uma energia explosiva devastadora, com a sua defesa contra-atacante impulsiva, egoísta e agressiva.
Claro que uma pessoa não precisa sentir-se inferiorizada numa relação, ter transtornos psicológicos ou ter vivido episódios menos agradáveis para estar com ciúmes (note-se a diferença entre "ter" e "estar com" ciúmes): não estaremos todos mais vulneráveis a ele em momentos de stress, perdas, mudanças e comportamentos provocativos do outro?
o que fazer?
À excepção de casos de patologia grave. a solução é muito simples. Pergunte-se: "Por que optei por estar nesta relação?" Pessoas estáveis tendem a envolver-se em relações com pessoas às quais querem realmente. E se houver um espaço de confiança, aceitação pessoal e do outro, poderemos viver menos obcecados com fantasias de traição. Para tal é necessário ter coragem e saber defender as ideias, com firmeza, convicção e respeito pelo outro (mesmo que haja discordância), ao mesmo tempo que se mostra compreensão e tolerância em relação a si mesmo e às próprias limitações.
O psiquiatra brasileira Eduardo Ferreiro Santos afirma que mediante a análise detalhada do ciúme pode-se perceber que não se trata de um sentimento voltado para o outro, mas sim poro si mesmo, para quem o sente, pois é o medo egocentrado de perder o outro que o motiva. E é por isso que todo o esforço deve ser virado para a própria pessoa.
Acima de tudo, recomenda-se que crie a capacidade de deixar o outro reflectir em si e de poder reflectir-se no outro, relacionando os factos e podendo sempre explicar os sentimentos ao outro, ou seja, eu falo por mim e deixo o outro falar por si levitando repreensões e julgamentos morais). Deve ser criado um verdadeiro espaço franco e aberto de encontro dialógico que não permita que o doce bálsamo que é o amor se converta num veneno letal digno de uma tragédia de Shakespeare.




